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sexta-feira, 29 de março de 2013

Cristo Morto... E agora?

Profunda reflexão de Hippolit, personagem de Dostoievski no livro "O Idiota", sobre um quadro que viu o quadro "Cristo Morto", de Hans Holbein, o Jovem. Me fez pensar em Isaías 53 e nos sentimentos dos seus seguidores quando seu Mestre morreu:

"O quadro era uma representação de Cristo recém-retirado da cruz. Acho que os pintores pegaram a mania de representar Cristo, seja na cruz, seja retirado da cruz, ainda com o matiz de uma beleza inusual no rosto; procuram conservar essa beleza nele até durante os mais terríveis suplícios.
No quadro de Rogójin não há uma só palavra sobre a beleza; ali está, na forma plena, o corpo de um homem que, ainda antes de ser levado à cruz, sofreu infinitos suplícios, ferimentos, torturas e espancamento por parte da guarda, espancamento por parte do povo quando carregava a cruz e caiu debaixo dela e, por último, o suplício da cruz ao longo das seis horas (pelo menos de acordo com os meus cálculos).
Na verdade, é o rosto de um homem que acaba de ser retirado da cruz, isto é, que conservou muita coisa viva, afetuosa; ainda não houvera tempo para enrijecer nada, de tal forma que no rosto do morto ainda aparecia o sofrimento, como se ele continuasse a senti-lo (o artista captou isso muito bem); mas, por outro lado, o rosto não foi minimamente poupado; ali está apenas a natureza, e em verdade assim deve ser o cadáver de um homem, seja lá quem for, depois de semelhantes suplícios.
Eu sei que a Igreja cristã já estabeleceu desde os primeiros séculos que Cristo não sofreu de maneira figurada, mas real e que, por conseguinte, o seu corpo na cruz foi subordinado à lei da natureza de forma plena e absoluta.
No quadro esse rosto está horrivelmente fraturado pelos golpes, inchado, com esquimoses terríveis, inchadas e ensanguentadas, os olhos abertos, as pupilas esguelhadas; as escleróticas graúdas e abertas irradiam um brilho mortiço, vítreo. 
Todavia, coisa estranha; quando se olha para esse cadáver do homem supliciado, surge uma pergunta especial e curiosa: se esse cadáver fosse visto exatamente assim (e sem falta ele devia ser exatamente assim) por todos os seus discípulos, por seus principais e futuros apóstolos, pelas mulheres que o seguiam e estavam ao pé da cruz, por todos os que nele acreditavam e adoravam, estes, ao olharem para esse cadáver, como poderiam acreditar que esse mártir iria ressuscitar?
Aí vem involuntariamente a ideia de que, se a morte é tão terrível e as leis da natureza são tão fortes, como superá-las? Como superá-las se agora elas não foram vencidas nem por aquele que em vida vencia até  a natureza, a quem subordinava, aquele que exclamou: 'Talita cumi' - e a menina se levantou, 'Lázaro, vem para fora' - e o morto não saiu?
Quando se olha esse quadro, a natureza nos aparece com a visão de um monstro imenso, implacável e surdo ou, mais certo, é bem mais certo dizer, mesmo sendo também estranho - na forma de alguma máquina gigantesca de construção moderna, que de modo absurdo agarrou, moeu e sorveu, de forma abafada e insensível, um ser grandioso e inestimável - um ser que sozinho valia toda a natureza e todas as suas leis, toda a terra, que possivelmente fora criada unicamente para o aparecimento dele!
É como se esse quadro exprimisse precisamente esse conceito de força obscura, insolente, absurda e eterna, à qual tudo está subordinado e é transmitido involuntariamente a você.
Aquelas pessoas que rodeavam o morto, das quais não há nenhuma no quadro, devem ter experimentado uma terrível nostalgia e perturbação naquela noite que lhes devorou de uma vez todas as suas esperanças e quase todas as crenças. Todas devem ter-se afastado no mais terrível pavor, ainda que cada uma levasse consigo um pensamento íntimo, que delas nunca mais poderia ser arrancado."

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Para quem você cozinha?

Recentemente vi uma pessoa muito chateada por ter se esmerado em preparar um prato e as pessoas não o degustarem com tanto gosto quanto ela esperava.
Me fez refletir... Para quem as pessoas cozinham?
Diferente do sentido normalmente usado, penso que quando você cozinha para as pessoas sua única preocupação é fazer algo que proporcione satisfação a quem vai provar aquele doce, massa ou assado...
Já a pessoa que cozinha para si mesma tem uma missão muito mais difícil: preparar algo tão espetacular que arranque elogios efusivos de todos aqueles que provarem seu manjar.
Certamente é gostoso quando alguém diz que o prato que você preparou ficou muito bom. E com certeza todos precisamos ser agradecidos e gentis ao reconhecer o trabalho e tempo que aquela pessoa investiu para nos fazer bem.
O problema é que a pessoa que cozinha para si mesma tem uma vida muito difícil!
Salgar demais um prato pode não fazer grandes estragos na vida de quem cozinha para os outros, mas pode acabar com o dia - senão com a semana inteira - de alguém que precisa muito da atenção das pessoas...
Não se trata simplesmente de um erro, mas de toda a reputação que precisou de muitos pratos para ser conquistada!
Como seria infeliz uma mãe de família que passasse a vida toda cozinhando esperando por elogios...
Mas na verdade não se trata apenas de cozinhar, não é?
Fazer para si ou fazer para os outros é algo que envolve toda a nossa vida: para quem eu canto, para quem arrumo a casa, dou uma aula, escrevo um texto, faço cálculos, construo casas, planto um jardim...
Uma coisa é me arrumar de forma que minha aparência seja agradável aos outros. Outra coisa é a necessidade de ser o grande destaque do "Tapete Vermelho"; o centro das atenções. É escravizador.
E se torna difícil conviver com alguém que depende da aprovação e atenção dos outros o tempo todo... Se torna pesada a sensação de estar sempre devendo alguma coisa... Esse vazio imenso que parece nunca se preencher.
Mas quando restauramos nossa identidade em Cristo e percebemos nossa plenitude Nele... Que alívio! Que leveza! Os problemas de necessidade de aprovação, autocomiseração e autodepreciação vão embora e dão lugar à alegria de agradar a Deus e servir aos outros!
Não vou ficar remoendo ressentimentos nem sentindo pena de mim mesma... Vou sorrir cheia de gratidão pelo privilégio de fazer algo com carinho e oferecer às pessoas um momento feliz.



sábado, 13 de outubro de 2012

A importância do sofrimento na vida da criança


Malala Yousafzai
Embora pareça contrário à natureza daqueles que desejam proteger suas crianças de toda e qualquer dor, permitir o sofrimento - especialmente aquele causado pelo esforço - é importante e necessário para o desenvolvimento pleno de uma pessoa.

É triste perceber a inclinação da criança à "Lei do Mínimo Esforço". Esta lei também pode ser interpretada como a busca pela melhor forma de se atingir um resultado, mas aqui indica o hábito que a criança desenvolve ao se esforçar o mínimo possível em qualquer atividade que realize. 

Sabendo que "fazer a própria vontade" é uma tendência natural de todo aquele que está sob os efeitos do pecado, o que causa espanto não é tanto perceber as ações da criança, mas ver pais e educadores que cedem às manhas e reclamações, deixando de exigir que as crianças se empenhem e façam o melhor que são capazes.

Vivemos em uma cultura que considera o trabalho como castigo e o sofrimento como algo a ser evitado. Muitas vezes, com a intenção de poupar a criança do sofrimento que o esforço provoca, os pais e educadores não percebem que estão, na verdade, prejudicando seu desenvolvimento intelectual,  menosprezando sua capacidade e corrompendo sua formação moral.

Permitir que a criança passe por situações dolorosas possibilita seu desenvolvimento intelectual ao estimular a descoberta de novas possibilidades para resolução dos problemas, incentivar o uso da criatividade e exigir que realize as operações mentais que a situação exige.

Ao mesmo tempo, quando a criança é estimulada a enfrentar os problemas ao invés de fugir deles, descobre que é capaz de ir muito além do que imaginava, tornando-se mais segura de suas habilidades e potenciais, ao contrário daqueles que se julgam incapazes e inferiores aos outros.

A criança que cresce aprendendo que o esforço é necessário e parte da vida, dificilmente se tornará um adulto que faz escolhas buscando o "caminho mais fácil" ou "dar um jeitinho". A dificuldade encontrada se torna um desafio quando contempla as possibilidades do resultado final e o medo do sofrimento não a fará perder oportunidades ou abrir mão de seus valores.

É importante ensinar à criança que o trabalho é parte do plano de Deus para a vida e foi estabelecido para a vida humana ainda antes da Queda, ou seja, quando o homem vivia a plenitude de seu relacionamento com o Criador. O esforço e o trabalho eram, então, parte do privilégio do homem em sua participação na transformação da Criação.

Muitos se impressionam, nos dias de hoje, ao perceber quão jovens eram os grandes pensadores quando desenvolveram suas teorias, produções e invenções. Mas não se percebe que, em sua maioria, as ideias e o caráter desses heróis não se formaram à base de horas de televisão e brincadeiras pré-fabricadas. Tampouco foram poupados das dificuldades dos estudos e do trabalho.

Essas mentes e corações se desenvolveram, geralmente, no solo fértil da leitura, dos estudos e, sim, do sofrimento produzido pelo esforço e, não poucas vezes, pelas dores da vida.

Compreender as limitações da criança não significa evitar que ela se esforce, mas descobrir estratégias para ajudá-la a superar seus limites e ir além daquilo que sua simples vontade deseja.

Assim se formam homens e mulheres que, mais do que passar pela vida, são capazes de impactar outras vidas, transformar realidades e, de alguma forma, mudar o mundo.


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O presente de quem ama

É engraçada essa história de amar - esse amor que, mesmo sem receber, está sempre pronto a doar.
Porque mesmo contrariando toda a expectativa das alegrias exaltadas em prosa e verso, quando alguém decide amar sem egoísmo, descobre a Graça.
E quanto mais ama, mais aprende a amar. E da Graça recebe o presente... Uma plenitude tão profunda e rica que certamente nenhuma alegria poderia lhe dar.

domingo, 3 de junho de 2012

Tempos modernos...


Era uma vez um menino...

Vivendo seguro debaixo dos cuidados de seu pai ele desfrutava da alegria de uma vida tranquila. Jogava bola, brincava, se divertia... E quando ficava escuro ele sabia que precisava voltar.

Obediente às ordens do pai, cuidava em agir como ele queria. Afinal, como sempre percebia, era seu pai quem lhe cuidava e provia tudo o que precisava... E até mais.

Mas o menino cresceu...

E aos poucos foi deixando de pensar que seu pai sabia o que era melhor. Começou a questionar as regras e em algum tempo já não havia espaço para a gratidão em seu coração. Porque tudo o que ele queria era ser o dono do seu próprio nariz.

A revolta cresceu, até o dia em que decidiu: "Não fico mais aqui. Afinal, quem meu pai pensa que é para dizer o que é melhor para mim? E aliás, quem garante que ele seja mesmo meu pai?"

E lá se foi o jovem rebelde viver os caminhos que ele mesmo faria.  Viver sua liberdade, sua autonomia.
A princípio com certo receio, mas logo sem medo algum, ele quebrou todas as regras... Ultrapassou todos os limites.

"Agora sim a vida que eu sempre quis!"

Ansioso por provar a si mesmo que não precisava de nada que lhe havia oferecido seu pai, partiu para uma busca intensa de criação das suas próprias ferramentas que lhe permitissem controlar e dominar o mundo!

Mas os instrumentos que ele criava feriam-lhe as próprias mãos e já não podia trabalhar sem sofrer.

E conforme os anos passavam ele não percebia que quanto mais se afastava, mais ele se perdia.

No anseio de conquistar sua liberdade, aquele jovem, agora homem, tornou-se escravo dos caminhos que ele mesmo escolheu.

Estaria ele disposto a lembrar-se e reconhecer a importância dos princípios ensinados por seu Pai?

terça-feira, 3 de abril de 2012

Sobra... e falta

Sobra euforia, falta contrição.
Sobram banalidades, falta reflexão.
Sobra religiosidade, falta sabedoria.
Sobram opiniões, falta conhecimento.

Sobra "face", faltam faces.
Sobra "curtir", faltam abraços.
Sobram "smiles", falta o sorriso.
Sobram comentários, falta o som da voz.

Sobram teorias, falta simplicidade.
Sobram aparências, falta essência.
Sobra entretenimento, falta plenitude.

Sobra virtualidade, falta vida.
Sobram amigos, falta presença.
Sobram redes sociais, faltam relacionamentos.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O peso da História


Confesso que nunca me importei com História. Tudo bem, era interessante ouvir os relatos dos acontecimentos, mas só. Por que me importar com o que já passou? "Bom, Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil em 1.500... Aconteceram duas Grandes Guerras, uma delas terminou em 1.945 e é isso aí... Agora vamos ao que interessa..."

E me envergonho por ter vivido assim. Eu estava errada. Muito errada! Descobri que na verdade tudo o que já aconteceu tem uma relação direta com a minha vida e com as escolhas que eu faço hoje.

E quanto mais estudo a História, mais me surpreendo com o peso que ela tem! Tudo o que vivemos hoje é fruto de decisões, ideias e eventos ocorridos em algum ponto do passado, assim como o que estamos vivendo hoje de alguma forma influenciará o que acontecerá no futuro.

É ilusão querer viver o presente e pensar o futuro sem olhar para o passado! Winston Churchill disse: "Quanto mais para trás você pode olhar, mais à frente é provável que você veja".

Ora, se vivemos buscando e baseando nossas práticas em ideias, teorias e pensamentos que foram produzidos lá atrás, é fundamental conhecer o contexto em que elas se desenvolveram antes de concluir se são aplicáveis ou não aos nossos dias.

Além disso, é impressionante perceber o agir de Deus através da História ao mesmo tempo em que vemos o Homem vivendo os resultados de suas escolhas - esteja ele consciente disso ou não.

James E. White, em seu livro "A mente cristã num mundo sem Deus" faz uma analogia interessante ao dizer que na língua inglesa a palavra História (History) poderia ser a junção do pronome possessivo His (Dele) com o substantivo story (narrativa de uma série de eventos). Ou seja, His story - a história de Deus.

Ou seja, não se trata apenas de valorizar o estudo da História como forma de manter as memórias de um povo, como eu aprendia. Se trata de se empenhar numa busca sedenta por entender o que nos trouxe para onde estamos, porque é a partir desta raiz que saberemos o que precisamos preservar e como podemos agir no mundo e construir a nossa história para a glória de Deus.


* Esta imagem faz parte do site HyperHistory, um recurso excelente para entender melhor onde se localizam, na linha do tempo, os eventos e pessoas que marcaram a História.