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sábado, 11 de abril de 2015

A dignidade humana e a Imago Dei - a imagem de Deus


"Com efeito, para que não desanimemos em fazer o bem [Gl 6.9], o que de outra forma necessariamente haveria de acontecer imediatamente, convém adicionar esse outro ponto que o Apóstolo menciona: que a caridade é paciente, não se irrita [1Co 13.4, 5].

O Senhor preceitua que se deve fazer o bem a todos em geral, os quais em grande parte são muitíssimo indignos, se forem estimados em seu próprio mérito. Mas aqui a Escritura nos apresenta uma excelente razão, quando ensina que não se deve atentar para o que os homens mereçam em si próprios, pelo contrário, deve-se levar em conta a imagem de Deus em todos, à qual devemos toda honra e amor.

Entretanto, essa mesma imagem deve ser mais diligentemente observada nos domésticos da fé [Gl 6.10], até onde foi ela renovada e restaurada pelo Espirito de Cristo. Portanto, não podes negar aos homens que agora se acham diante de ti carecendo de tua ajuda, não tens motivo algum para que te furtes a assisti-los.

Talvez digas que não passa de um estranho: o Senhor, no entanto, imprimiu-lhe um traço que para ti deve ser o de um membro da família, em razão do qual veda que desprezes tua própria carne [Is 58.7]; talvez digas ser ele desprezível e sem valor: o Senhor, no entanto, mostra que ele é um a quem dignou da honra de sua imagem; talvez digas que não estás em dívida ou obrigação para com ele: Deus, no entanto, como que o subestabelece em seu lugar, em relação a quem haverás de reconhecer tantos e tão grandes benefícios, com os quais ele o mantém sob obrigação para com ele; talvez digas que ele é indigno de que por sua causa faças sequer o mínimo esforço; digna, no entanto, é a imagem de Deus, pela qual ele te é recomendado para que te ofereças, a ti mesmo e a tudo o que tens.

Ora, ainda quando não só não mereça nada de bom, mas até mesmo te haja provocado com injustiças e malefícios, na verdade esta não é um motivo justo por que o deixes de abraçar com amor e de cumulá-lo com os benefícios de tua estima [Mt 6.14; 18.35; Lc 17.3, 4]. Talvez digas: “No que me diz respeito, o que ele merece é muito diferente.” Mas, o que o Senhor realmente merece, quando ordena 68 LIVRO III que sejas perdoado de tudo quanto o ofendeste, e que tudo lhe seja imputado? Com efeito, por esta única via se chega a isto: que é absolutamente contrário à natureza humana, não só difícil, a saber, amarmos aqueles que nutrem ódio por nós, recompensando-lhes os males com benefícios, revidando com bênçãos aos insultos.

Que nos lembremos de que não se deve atentar para a maldade dos homens; ao contrário, deve-se ter em mira a imagem de Deus neles, a qual, cancelados e apagados seus delitos, nos alicia a amá-los e abraçá-los com sua beleza e dignidade."

João Calvino - Institutas III - capítulo VII - 3

sábado, 8 de março de 2014

"Dum docent, discunt" - Quando ensinam, aprendem

"Prô, magnum opus entra em Influências ou em Contribuições?"
"E por acaso você sabe o que significa magnum opus??" 
"Sei. É a melhor obra que ele fez, no caso, O Senhor dos Anéis"
...
"Prô, qual o nome inteiro do Lobato mesmo?"
"Lobato? Monteiro Lobato? Mas sua pesquisa não é sobre o petróleo?" 
"Sim! Ele escreveu cartas para o presidente para convencer ele que tinha petróleo!"
...
"Prô, você sabia que o Lewis e o Tolkien escreveram juntos um livro que nunca foi publicado? Chama 'Linguagem e Natureza Humana'"

- Eles me surpreendem. Eles descobrem coisas que eu não sei. Eles me fazem ser uma professora mais feliz!!!
Por favor, não menosprezem a capacidade das crianças!!!

A Escola e a Beleza

Por que gastar tanto tempo arrumando a sala de aula no início do ano?

Porque a sala de aula é uma casa também. O professor é um anfitrião do conhecimento e preparar o ambiente onde os alunos serão recebidos é parte da hospitalidade, parte da demonstração do cuidado e amor que envolvem a tarefa de ensinar. Ali é o lugar onde as crianças e eu passaremos uma boa parte dos nossos dias, compartilhando descobertas, viajando a lugares desconhecidos e aprendendo a viver - ali precisa ser um lugar bonito e onde eles sintam prazer em estar.

Não se trata apenas de uma decoração pedagógica, mas de pequenos detalhes que embelezam a vida e nosso pequeno espaço no mundo, como tão bem ensinou Edith Schaeffer (alguns trechinhos lindos logo abaixo).



terça-feira, 17 de setembro de 2013

A Educação e o poder de um olhar

Há um tempo venho percebendo um problema naquela frase tão comum nas nossas conversas de pais e educadores: "No meu tempo as crianças não eram assim. Só um olhar do meu pai era o suficiente para a gente ficar quieto".

No meu tempo... Nós gostamos de pensar que no nosso tempo tudo era diferente e que as coisas - ou a maioria delas - funcionavam como deveria ser. O que nem sempre é verdade, claro. Nós temos uma forte tendência de lembrar do passado em tons mais dourados do que ele de fato foi - ou, em outro extremo, acreditar que aquilo que funcionava antes encontra-se ultrapassado demais para os dias de hoje.

Mas a questão que me fez pensar foi: será que as crianças realmente mudaram? 

Resolvi fazer uma experiência com meus alunos. Não só para descobrir essa resposta, mas porque chegou um momento em que eu me cansei de falar cada vez mais alto e não ser ouvida. Decidi parar de falar e só olhar.

No início a situação não mudou muito. Naqueles momentos de bagunça generalizada não fazia muita diferença se eu estava escrevendo nas agendas ou olhando para eles. Então eu entendi que precisava mudar o olhar. Percebi que só olhar não basta, porque olhamos uns para os outros o tempo todo. É preciso assumir uma postura que demonstre o que se quer comunicar com o olhar.

E com essa mudança, para minha surpresa, comecei a perceber duas reações. Uma eram as vozes que começavam a ecoar aqui e ali:  "a professora quer falar!!". A segunda é que conforme as conversas iam parando e cada um voltava ao seu lugar, aqueles que ainda estavam falando percebiam que eu estava olhando para eles e se encolhiam dizendo "desculpa, prô".

Impressionante! Sem gritar, sem fazer ameaças, sem ficar rouca, sem "perder a linha" - porque cada vez que alguém precisa gritar para ser ouvido, um pouco de sua autoridade se foi.

Foi quando eu entendi que, de fato, as crianças não mudaram. Elas não deixaram de entender o significado do olhar e de saber como responder a ele. Fomos nós, os educadores, que paramos de olhar. Fomos nós que começamos a falar demais. Fomos nós que diminuímos o nível exigido de obediência e respeito porque abrimos mão da autoridade que nos foi conferida e que é absolutamente necessária para que o ensino e a educação aconteçam.

Talvez por estar muito ocupados com milhares atividades e impacientes para resolver tantos problemas... É muito mais fácil gritar "Juquinha, volta já para o seu lugar!!" - enquanto procuro aquela atividade que estava aqui agora mesmo e acabou de sumir - do que parar tudo e gastar alguns minutos olhando para ele. É muito mais prático continuar lavando a louça do que parar alguns minutos para olhar para o filho enquanto ele conta sua história. Porque todos nós - pais e professores - estamos sempre muito ocupados.

Mas o olhar faz uma grande diferença. Quando eu olho com atenção para os meus alunos eu não transmito apenas a mensagem "façam silêncio porque eu quero falar". O que eles estão lendo, nas entrelinhas, é: "Eu estou olhando para você. Eu estou observando o que você está fazendo e dizendo. Eu sou sua professora. Eu me importo com você e por isso quero sua atenção."

Não são apenas os apaixonados e os grandes amigos que se comunicam pelo olhar, mas todos aqueles que se conhecem e têm alguma cumplicidade, uma história em comum. E ainda hoje eu me espanto ao perceber como meus alunos aprendem a conhecer meus olhares assim como eu aprendo a conhecer os olhar de cada um deles. 

Me espanto quando estou lá na frente, no anfiteatro, e um olhar é suficiente para que um aluno na última fileira entenda que precisa parar de conversar ou voltar para o seu lugar. Me espanto quando durante a aula surge algum assunto que faz lembrar um segredo que alguém me contou e vejo uns olhinhos risonhos que me dizem "lembra o que eu disse?"

Ainda há situações em que eu me perco, esqueço e falo demais. Mas hoje eu olho muito mais para os meus alunos e eles para mim. E hoje eu sei que as crianças não mudaram. Elas continuam precisando ser ensinadas. E somos nós que precisamos ensinar.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

As pessoas "se enganam" ou "são enganadas"?


A cena é quase sempre a mesma: o olhar perdido e a cabeça se movendo em negativa refletem a decepção de ter acreditado em algo que não era verdade. O tamanho da dor, é claro, depende do quanto se investiu e lutou por aquilo.

Costumo pensar que as pessoas deveriam assumir mais sua responsabilidade nessas situações e ao invés de se colocar como vítimas, simplesmente reconhecer: "Me enganei. Fui crédulo em demasia e não verifiquei as coisas que ouvia antes de assumi-las como verdade."

Mas pensando bem, seria possível viver uma vida e relacionamentos de fato saudáveis assumindo uma postura de desconfiar de tudo o que se ouve e vê?

Embora seja um dos equilíbrios mais difíceis de se encontrar, a fórmula divina "simples como a pomba e prudente como a serpente" é, de fato, a melhor forma de se viver.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Cristo Morto... E agora?

Profunda reflexão de Hippolit, personagem de Dostoievski no livro "O Idiota", sobre um quadro que viu o quadro "Cristo Morto", de Hans Holbein, o Jovem. Me fez pensar em Isaías 53 e nos sentimentos dos seus seguidores quando seu Mestre morreu:

"O quadro era uma representação de Cristo recém-retirado da cruz. Acho que os pintores pegaram a mania de representar Cristo, seja na cruz, seja retirado da cruz, ainda com o matiz de uma beleza inusual no rosto; procuram conservar essa beleza nele até durante os mais terríveis suplícios.
No quadro de Rogójin não há uma só palavra sobre a beleza; ali está, na forma plena, o corpo de um homem que, ainda antes de ser levado à cruz, sofreu infinitos suplícios, ferimentos, torturas e espancamento por parte da guarda, espancamento por parte do povo quando carregava a cruz e caiu debaixo dela e, por último, o suplício da cruz ao longo das seis horas (pelo menos de acordo com os meus cálculos).
Na verdade, é o rosto de um homem que acaba de ser retirado da cruz, isto é, que conservou muita coisa viva, afetuosa; ainda não houvera tempo para enrijecer nada, de tal forma que no rosto do morto ainda aparecia o sofrimento, como se ele continuasse a senti-lo (o artista captou isso muito bem); mas, por outro lado, o rosto não foi minimamente poupado; ali está apenas a natureza, e em verdade assim deve ser o cadáver de um homem, seja lá quem for, depois de semelhantes suplícios.
Eu sei que a Igreja cristã já estabeleceu desde os primeiros séculos que Cristo não sofreu de maneira figurada, mas real e que, por conseguinte, o seu corpo na cruz foi subordinado à lei da natureza de forma plena e absoluta.
No quadro esse rosto está horrivelmente fraturado pelos golpes, inchado, com esquimoses terríveis, inchadas e ensanguentadas, os olhos abertos, as pupilas esguelhadas; as escleróticas graúdas e abertas irradiam um brilho mortiço, vítreo. 
Todavia, coisa estranha; quando se olha para esse cadáver do homem supliciado, surge uma pergunta especial e curiosa: se esse cadáver fosse visto exatamente assim (e sem falta ele devia ser exatamente assim) por todos os seus discípulos, por seus principais e futuros apóstolos, pelas mulheres que o seguiam e estavam ao pé da cruz, por todos os que nele acreditavam e adoravam, estes, ao olharem para esse cadáver, como poderiam acreditar que esse mártir iria ressuscitar?
Aí vem involuntariamente a ideia de que, se a morte é tão terrível e as leis da natureza são tão fortes, como superá-las? Como superá-las se agora elas não foram vencidas nem por aquele que em vida vencia até  a natureza, a quem subordinava, aquele que exclamou: 'Talita cumi' - e a menina se levantou, 'Lázaro, vem para fora' - e o morto não saiu?
Quando se olha esse quadro, a natureza nos aparece com a visão de um monstro imenso, implacável e surdo ou, mais certo, é bem mais certo dizer, mesmo sendo também estranho - na forma de alguma máquina gigantesca de construção moderna, que de modo absurdo agarrou, moeu e sorveu, de forma abafada e insensível, um ser grandioso e inestimável - um ser que sozinho valia toda a natureza e todas as suas leis, toda a terra, que possivelmente fora criada unicamente para o aparecimento dele!
É como se esse quadro exprimisse precisamente esse conceito de força obscura, insolente, absurda e eterna, à qual tudo está subordinado e é transmitido involuntariamente a você.
Aquelas pessoas que rodeavam o morto, das quais não há nenhuma no quadro, devem ter experimentado uma terrível nostalgia e perturbação naquela noite que lhes devorou de uma vez todas as suas esperanças e quase todas as crenças. Todas devem ter-se afastado no mais terrível pavor, ainda que cada uma levasse consigo um pensamento íntimo, que delas nunca mais poderia ser arrancado."

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Para quem você cozinha?

Recentemente vi uma pessoa muito chateada por ter se esmerado em preparar um prato e as pessoas não o degustarem com tanto gosto quanto ela esperava.
Me fez refletir... Para quem as pessoas cozinham?
Diferente do sentido normalmente usado, penso que quando você cozinha para as pessoas sua única preocupação é fazer algo que proporcione satisfação a quem vai provar aquele doce, massa ou assado...
Já a pessoa que cozinha para si mesma tem uma missão muito mais difícil: preparar algo tão espetacular que arranque elogios efusivos de todos aqueles que provarem seu manjar.
Certamente é gostoso quando alguém diz que o prato que você preparou ficou muito bom. E com certeza todos precisamos ser agradecidos e gentis ao reconhecer o trabalho e tempo que aquela pessoa investiu para nos fazer bem.
O problema é que a pessoa que cozinha para si mesma tem uma vida muito difícil!
Salgar demais um prato pode não fazer grandes estragos na vida de quem cozinha para os outros, mas pode acabar com o dia - senão com a semana inteira - de alguém que precisa muito da atenção das pessoas...
Não se trata simplesmente de um erro, mas de toda a reputação que precisou de muitos pratos para ser conquistada!
Como seria infeliz uma mãe de família que passasse a vida toda cozinhando esperando por elogios...
Mas na verdade não se trata apenas de cozinhar, não é?
Fazer para si ou fazer para os outros é algo que envolve toda a nossa vida: para quem eu canto, para quem arrumo a casa, dou uma aula, escrevo um texto, faço cálculos, construo casas, planto um jardim...
Uma coisa é me arrumar de forma que minha aparência seja agradável aos outros. Outra coisa é a necessidade de ser o grande destaque do "Tapete Vermelho"; o centro das atenções. É escravizador.
E se torna difícil conviver com alguém que depende da aprovação e atenção dos outros o tempo todo... Se torna pesada a sensação de estar sempre devendo alguma coisa... Esse vazio imenso que parece nunca se preencher.
Mas quando restauramos nossa identidade em Cristo e percebemos nossa plenitude Nele... Que alívio! Que leveza! Os problemas de necessidade de aprovação, autocomiseração e autodepreciação vão embora e dão lugar à alegria de agradar a Deus e servir aos outros!
Não vou ficar remoendo ressentimentos nem sentindo pena de mim mesma... Vou sorrir cheia de gratidão pelo privilégio de fazer algo com carinho e oferecer às pessoas um momento feliz.



sábado, 13 de outubro de 2012

A importância do sofrimento na vida da criança


Malala Yousafzai
Embora pareça contrário à natureza daqueles que desejam proteger suas crianças de toda e qualquer dor, permitir o sofrimento - especialmente aquele causado pelo esforço - é importante e necessário para o desenvolvimento pleno de uma pessoa.

É triste perceber a inclinação da criança à "Lei do Mínimo Esforço". Esta lei também pode ser interpretada como a busca pela melhor forma de se atingir um resultado, mas aqui indica o hábito que a criança desenvolve ao se esforçar o mínimo possível em qualquer atividade que realize. 

Sabendo que "fazer a própria vontade" é uma tendência natural de todo aquele que está sob os efeitos do pecado, o que causa espanto não é tanto perceber as ações da criança, mas ver pais e educadores que cedem às manhas e reclamações, deixando de exigir que as crianças se empenhem e façam o melhor que são capazes.

Vivemos em uma cultura que considera o trabalho como castigo e o sofrimento como algo a ser evitado. Muitas vezes, com a intenção de poupar a criança do sofrimento que o esforço provoca, os pais e educadores não percebem que estão, na verdade, prejudicando seu desenvolvimento intelectual,  menosprezando sua capacidade e corrompendo sua formação moral.

Permitir que a criança passe por situações dolorosas possibilita seu desenvolvimento intelectual ao estimular a descoberta de novas possibilidades para resolução dos problemas, incentivar o uso da criatividade e exigir que realize as operações mentais que a situação exige.

Ao mesmo tempo, quando a criança é estimulada a enfrentar os problemas ao invés de fugir deles, descobre que é capaz de ir muito além do que imaginava, tornando-se mais segura de suas habilidades e potenciais, ao contrário daqueles que se julgam incapazes e inferiores aos outros.

A criança que cresce aprendendo que o esforço é necessário e parte da vida, dificilmente se tornará um adulto que faz escolhas buscando o "caminho mais fácil" ou "dar um jeitinho". A dificuldade encontrada se torna um desafio quando contempla as possibilidades do resultado final e o medo do sofrimento não a fará perder oportunidades ou abrir mão de seus valores.

É importante ensinar à criança que o trabalho é parte do plano de Deus para a vida e foi estabelecido para a vida humana ainda antes da Queda, ou seja, quando o homem vivia a plenitude de seu relacionamento com o Criador. O esforço e o trabalho eram, então, parte do privilégio do homem em sua participação na transformação da Criação.

Muitos se impressionam, nos dias de hoje, ao perceber quão jovens eram os grandes pensadores quando desenvolveram suas teorias, produções e invenções. Mas não se percebe que, em sua maioria, as ideias e o caráter desses heróis não se formaram à base de horas de televisão e brincadeiras pré-fabricadas. Tampouco foram poupados das dificuldades dos estudos e do trabalho.

Essas mentes e corações se desenvolveram, geralmente, no solo fértil da leitura, dos estudos e, sim, do sofrimento produzido pelo esforço e, não poucas vezes, pelas dores da vida.

Compreender as limitações da criança não significa evitar que ela se esforce, mas descobrir estratégias para ajudá-la a superar seus limites e ir além daquilo que sua simples vontade deseja.

Assim se formam homens e mulheres que, mais do que passar pela vida, são capazes de impactar outras vidas, transformar realidades e, de alguma forma, mudar o mundo.


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O presente de quem ama

É engraçada essa história de amar - esse amor que, mesmo sem receber, está sempre pronto a doar.
Porque mesmo contrariando toda a expectativa das alegrias exaltadas em prosa e verso, quando alguém decide amar sem egoísmo, descobre a Graça.
E quanto mais ama, mais aprende a amar. E da Graça recebe o presente... Uma plenitude tão profunda e rica que certamente nenhuma alegria poderia lhe dar.

domingo, 3 de junho de 2012

Tempos modernos...


Era uma vez um menino...

Vivendo seguro debaixo dos cuidados de seu pai ele desfrutava da alegria de uma vida tranquila. Jogava bola, brincava, se divertia... E quando ficava escuro ele sabia que precisava voltar.

Obediente às ordens do pai, cuidava em agir como ele queria. Afinal, como sempre percebia, era seu pai quem lhe cuidava e provia tudo o que precisava... E até mais.

Mas o menino cresceu...

E aos poucos foi deixando de pensar que seu pai sabia o que era melhor. Começou a questionar as regras e em algum tempo já não havia espaço para a gratidão em seu coração. Porque tudo o que ele queria era ser o dono do seu próprio nariz.

A revolta cresceu, até o dia em que decidiu: "Não fico mais aqui. Afinal, quem meu pai pensa que é para dizer o que é melhor para mim? E aliás, quem garante que ele seja mesmo meu pai?"

E lá se foi o jovem rebelde viver os caminhos que ele mesmo faria.  Viver sua liberdade, sua autonomia.
A princípio com certo receio, mas logo sem medo algum, ele quebrou todas as regras... Ultrapassou todos os limites.

"Agora sim a vida que eu sempre quis!"

Ansioso por provar a si mesmo que não precisava de nada que lhe havia oferecido seu pai, partiu para uma busca intensa de criação das suas próprias ferramentas que lhe permitissem controlar e dominar o mundo!

Mas os instrumentos que ele criava feriam-lhe as próprias mãos e já não podia trabalhar sem sofrer.

E conforme os anos passavam ele não percebia que quanto mais se afastava, mais ele se perdia.

No anseio de conquistar sua liberdade, aquele jovem, agora homem, tornou-se escravo dos caminhos que ele mesmo escolheu.

Estaria ele disposto a lembrar-se e reconhecer a importância dos princípios ensinados por seu Pai?

terça-feira, 3 de abril de 2012

Sobra... e falta

Sobra euforia, falta contrição.
Sobram banalidades, falta reflexão.
Sobra religiosidade, falta sabedoria.
Sobram opiniões, falta conhecimento.

Sobra "face", faltam faces.
Sobra "curtir", faltam abraços.
Sobram "smiles", falta o sorriso.
Sobram comentários, falta o som da voz.

Sobram teorias, falta simplicidade.
Sobram aparências, falta essência.
Sobra entretenimento, falta plenitude.

Sobra virtualidade, falta vida.
Sobram amigos, falta presença.
Sobram redes sociais, faltam relacionamentos.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O peso da História


Confesso que nunca me importei com História. Tudo bem, era interessante ouvir os relatos dos acontecimentos, mas só. Por que me importar com o que já passou? "Bom, Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil em 1.500... Aconteceram duas Grandes Guerras, uma delas terminou em 1.945 e é isso aí... Agora vamos ao que interessa..."

E me envergonho por ter vivido assim. Eu estava errada. Muito errada! Descobri que na verdade tudo o que já aconteceu tem uma relação direta com a minha vida e com as escolhas que eu faço hoje.

E quanto mais estudo a História, mais me surpreendo com o peso que ela tem! Tudo o que vivemos hoje é fruto de decisões, ideias e eventos ocorridos em algum ponto do passado, assim como o que estamos vivendo hoje de alguma forma influenciará o que acontecerá no futuro.

É ilusão querer viver o presente e pensar o futuro sem olhar para o passado! Winston Churchill disse: "Quanto mais para trás você pode olhar, mais à frente é provável que você veja".

Ora, se vivemos buscando e baseando nossas práticas em ideias, teorias e pensamentos que foram produzidos lá atrás, é fundamental conhecer o contexto em que elas se desenvolveram antes de concluir se são aplicáveis ou não aos nossos dias.

Além disso, é impressionante perceber o agir de Deus através da História ao mesmo tempo em que vemos o Homem vivendo os resultados de suas escolhas - esteja ele consciente disso ou não.

James E. White, em seu livro "A mente cristã num mundo sem Deus" faz uma analogia interessante ao dizer que na língua inglesa a palavra História (History) poderia ser a junção do pronome possessivo His (Dele) com o substantivo story (narrativa de uma série de eventos). Ou seja, His story - a história de Deus.

Ou seja, não se trata apenas de valorizar o estudo da História como forma de manter as memórias de um povo, como eu aprendia. Se trata de se empenhar numa busca sedenta por entender o que nos trouxe para onde estamos, porque é a partir desta raiz que saberemos o que precisamos preservar e como podemos agir no mundo e construir a nossa história para a glória de Deus.


* Esta imagem faz parte do site HyperHistory, um recurso excelente para entender melhor onde se localizam, na linha do tempo, os eventos e pessoas que marcaram a História.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Conflitos

Na jornada da vida, de tempos em tempos nos deparamos com situações de conflito. São eventos que nos arrancam do torpor da rotina. O caminho a que já estávamos acomodados se transforma em uma ponte estreita e frágil sobre o abismo. 


Confusos, somos forçados a rever nossos conceitos, nossos valores, nossa forma de viver. Os pilares balançam. A incerteza causa desequilíbrio e traz o medo de cair. Não ter o controle provoca dor.

Nesses momentos, inevitavelmente fazemos uma escolha: voltar atrás para a segurança daquilo que sempre foi ou seguir adiante e enfrentar difícil o processo de descobrir novos caminhos e as renúncias que essa decisão trará.

O que muda tudo é: a quem você decide dar ouvidos quando toma essa decisão?






quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Deixar vir...


Despertar... 
Reunir forças para abrir os olhos para a realidade.
O sonho acabou.
A dor de desapegar-se de toda a doçura e acalento que ele trazia.
A luz do sol entra suave pela janela...
É manhã.
Ouço o farfalhar das folhas ao balanço da brisa.
Folhas... Ainda sonho ou já despertei?
Confusão...
Medo de me alegrar com o que não é.
Perder o que não se tem...
A luta entre estar segura e estar vulnerável.

Um instante! Eu me lembro agora.  
E a confusão vai dando espaço à alegria que a verdade traz.
Tomo coragem e caminho devagar. Afasto a cortina.
Sorrio.
Um campo repleto de flores belas e perfumadas.
O sonho é verdade e me sorri.

O sublime momento em que os braços se abrem...
E lentamente deixam vir o que é seu.
O coração não voa mais. Pertence.


Despertar...

É o começo de um novo dia.



quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A doçura do verdadeiro amor...

Livros são mesmo uma maravilha sem fim!
Nesta semana, descobrindo os livros que meus pais trouxeram da última conferência em que participaram, encontrei mais um achado lindo!!
Chama-se Palavras de Amor, de Michael Haykin com Victoria Haykin.


Embora a princípio pareça algo muito água com açúcar, na verdade contém preciosas palavras!
Grandes homens que marcaram a história do Cristianismo aparecem neste livretinho expressando um verdadeiro, profundo e sólido amor por suas esposas e algumas delas por eles também.


Entre elas encontrei as cartas de Samuel Pearce e achei tão lindo ver tanto carinho e amor sendo expressados  mesmo depois de anos de casamento, renovando minha certeza de que o amor que nasce no Senhor pode sim ser lindo e terno, não importa quanto tempo passe.


Trechinhos de duas dessas cartas aqui:


De Samuel Pearce para Sarah Pearce


Londres, 7 de setembro de 1795


... A cada dia que passa, não somente aumenta minha ternura por ti, como também meu apreço. Como o meu chamado me leva a conviver com muitas pessoas, em todas as classes sociais, diariamente tenho oportunidades para observar o temperamento humano e, depois de tudo quanto tenho visto e pensado, tanto o meu julgamento quanto minhas afeições ainda comprovam que, para mim, tu és a melhor dentre as mulheres. Já estamos unidos há muito tempo pelos laços conjugais para permitirmos que haja desconfiança de adulação em nossa correspondência ou em nossa conversa... Estou contando os dias em que espero poder me alegrar novamente em tua amada companhia.


Dublin, 24 de junho de 1796


... De minha parte, comparo esta carta a um tipo de galanteio, o qual me é mais agradável do que um galanteio costuma ser, devido à certeza de sucesso e por saber que minha amada noiva é muito melhor do que eu esperava. Hoje, o meu desejo de conquistar o teu coração não é menor do que quando pedi a tua mão. E a certeza de possuir-te não tem diminuído o prazer da expectativa de chamar-te minha, quando nos encontrarmos novamente... Oh, nossa preciosa lareira! Poderemos sentar bem juntinhos e estar a sós novamente. Espero que não demore muito até que eu possa desfrutar essa felicidade de novo. 
                                                   ***
Lindo, não?

quinta-feira, 15 de setembro de 2011


Quanto mais percebo a Graça transbordando e tornando meu caminho mais belo, 

mais sinto necessidade dela para saber como andar cada passo.
A mesma Graça que torna tudo tão leve, 
traz consigo um peso que só pode ser retirado quando nos voltamos a ela
 e reconhecemos que só por ela somos capazes de desfrutar
a liberdade que ela mesma oferece.

domingo, 31 de julho de 2011

Eu vou!!!

Finalmente em casa....
Malas desfeitas, tudo pronto para amanhã voltar à rotina.
Mas COM CERTEZA não volto a mesma. E COM CERTEZA minha rotina não será a mesma. 

Porque eu não nasci para viver assim... Só pensando em mim.
Não nasci para investir minha vida em carreira, progresso...
Nem pra correr atrás de status, riquezas, sucesso.

Eu já sabia. 
Meu coração já ardia por muito mais.

Que farei eu dos bens, das palmas e elogios... 
quando deste mundo já não mais eu for?
Que valor terão essas coisas quando eu fitar os olhos do meu Senhor?

Cansei desse nosso "ser igreja" para nós mesmos.
Cansei das canções, estudos e programações que só nós desfrutamos.

Não sei onde, como, nem com quem.
Sei que parada não fico.
Estou saindo do meu comodismo.
Seguindo a voz que chama a ir além.

Porque eu não nasci para viver assim, só pensando em mim.
Nasci para viver Por Ele e Para Ele.
"A quem enviarei?"
Eu vou, Senhor. Pode mandar que eu vou.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Como se cultiva uma flor rara...

Ela é cara porque é rara...
Ela é rara porque não é daqui..
Ela é almejada porque é linda!

É frágil em sua aparente força...
É incomum em sua especial beleza!

Requer paciência cuidar dela.
Requer cuidado mantê-la.
- "Mas graça das graças é não desistir nunca."

Retire os bulbos da terra
- "o essencial é invisível aos olhos"
Limpe-os delicadamente... Cerdas macias...
- "nunca é cedo para uma gentileza"
Deixe-os em local fresco e arejado
até que se passem três meses...
Não os deixe molhar!
- "e antes, e com tal zelo, e sempre e tanto..."

Passado esse tempo, plante-os em um vaso;
terra vegetal umedecida,
mas não deixe que se molhem!
- "não há sucesso sem entrega e dedicação"

Embrulhe o vaso com filme plástico
- "O carinho é responsável por nove-décimos de qualquer felicidade sólida..."
Agora guarde o vaso na geladeira por seis meses...
- "A paciência é a arte de esperar."

Depois dessa temporada, retire a planta...
Leve-a a um local fresco e iluminado por mais dois meses...
E novamente embrulhada,
ela retorna à geladeira para mais seis meses morar...
- "O que vale a pena possuir, vale a pena esperar."

Leve-a, por fim, a um lugar iluminado...
Espere um pouquinho e ela florecerá.

E se não florescer... Ainda assim ela será para você a mais bela de todas!!!
- "Foi o tempo que dedicaste à ela que a fez tão importante"

E não importa como ela seja ou como retribua seu esforço...
Você saberá que vai muito além de receber o que desejava...
"Tudo sofre. Tudo crê. Tudo espera. Tudo suporta. Jamais acaba"

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Deixar ir...



Despertar... 
Reunir forças para abrir os olhos...
O sonho acabou.
A dor de desapegar-se de toda a doçura e acalento que ele trazia.
A luz do sol entra suave pela janela...
O sol brilha.
E a dor vai dando espaço à paz que a verdade traz.
E a flor de poucas pétalas e cores pálidas se torna preciosa e linda.
Muito mais do que o campo repleto de flores belas e perfumadas.
Porque ao contrário deste, ela existe. 
É real.
O sublime momento em que as mãos se abrem...
E lentamente deixam ir o que nunca se teve.
O coração já não pesa mais.
Liberdade.


Despertar...
É o começo um novo dia.

sábado, 4 de junho de 2011

O terrível medo de falar a verdade...

Estamos vivendo dias que exigem uma posição pessoal.
Hoje parei para pensar no quanto eu ando sem medo de falar o que penso ultimamente.
Acho que estudar a bíblia e conviver com algumas pessoas diretas me tem feito repensar isso.

A verdade é tão importante!! Tão necessária!!
Por que não dizê-la? Por que evitá-la?
Eu sempre evitei por dois medos: o medo de magoar as pessoas e o medo de perder a amizade...

Mas chega um dia que a gente cresce e começa a ver a vida como ela é.

Nesse momento olho para os meus erros e me pergunto (como já disse em outro post) quem são as pessoas que tenho na minha vida que me amam o suficiente para me dizer que estou errada.
Eu não gosto de ouvir críticas. É uma luta aprender a lidar com isso. Eu choro, eu sou teimosa. 
Mas depois eu penso e reconheço.
E mais do que nunca quero estar cercada dessas pessoas que têm a capacidade de olhar nos meus olhos e ser duras comigo. Porque são essas pessoas que me fazem crescer e aprender.
Não aquelas que falam pelas costas ou que simplesmente não falam e me deixam lá, errando.

Agora, se eu quero isso para mim, porque não vou querer para os outros?
Porque ter medo de magoar as pessoas que amo ao ponto de não dizer a verdade a elas?
Já dizia o sábio Salomão:
"Leais são as feridas feitas pelo que ama, mas os beijos de quem odeia são enganosos" Pv. 27:6
E já dizia o sábio Paulo:
"O amor.. Não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade" I Coríntios 13:6

Agora... Não vamos enaltecer a importância de falar a verdade deixando de lado o como a verdade deve ser dita. Se minha motivação para falar a verdade é o amor, minha forma de falar deve demonstrar isso. 


E quanto ao outro medo, o medo de perder a amizade da pessoa...

Bom, um dia também você percebe que as pessoas não ficam na vida da gente pra sempre.
Você percebe que o tempo passou e as pessoas que você tinha medo de perder por falar a verdade, você perdeu por qualquer outro motivo. Com o tempo deixaram de ter interesse em você e se foram pelo seu caminho.
E você fica com aqueles poucos que te amam como você é.

Então, no fim das contas, por que querer ser amigo de todo mundo?
Por que querer ser amigo de alguém que não sabe o valor das opiniões contraditórias? Alguém que não sabe como é medíocre se envolver apenas com quem pensa como você? Alguém que não sabe concordar apesar das divergências?
O contexto é outro, mas a resposta é clara:
"Porventura andarão dois juntos se não houver entre eles acordo?" Amós 3:3 

Por isso, hoje eu falo mais o que eu penso que precisa ser dito.
E concordo tanto com as palavras do escritor angolano:

"Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!"


(trecho de "O valioso tempo dos maduros - Mário de Andrade")